Parriot 2008 - Viver é Emocionar-se Não deixe que a razão seja maior do que o sentir.
Não permita que o medo seja maior do que o amor.
Viver é emocionar-se.
O ano de 2008 foi importante pra mim. Foi a continuidade de um 2007 que terminou repleto de encontros, amores. Mas também foi um ano que foi se configurando de forma às vezes surpreendente.
Eu vi histórias este ano que me ensinaram muito a respeito de que lado devemos ficar quando é a ética que está em jogo. Daria pra escrever uma novela.
Mas isso é uma história pra daqui a pouco. Não adiantemos as coisas.
Revendo os textos do blog, vi que 2008 pra mim começou com sentimentos de saudade. Além disso, o sentimento de que a cada dia, me cobro ser homem. Homem adulto. Sensação de que ao chegar perto dos 30 anos é necessário formar uma família, construir uma relação estável, uma casa... "Ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais".
(...) preferiria estar deitado no colo da minha mãe. Porque é difícil ser homem. É difícil passar por aquele intransigente porta que separa a ilusão da realidade. É difícil superar a encruzilhada que este tornar-se homem empreende frente aos sonhos de criança de um dia ser forte, feliz e ter ao seu lado um grande amor porque foi isso que me ensinaram na TV e no cinema. (em 27 de Janeiro de 2008)
Na pergunta crucial que fiz estava toda a sorte de significados que procurei empreender de forma delicada: "Será que você não percebe? Será que não vê que sua solidão foi cavada por você mesmo? Não percebe que a tristeza, a doença, o desespero foram criados por você?". Porque todo mundo morre, todo mundo vai embora um dia, todo amor termina, o dia nasce todo dia, mas resta uma dúvida, o sol só vem de vez em quando. (08 de Fevereiro de 2008)
E ser adulto lá tem a ver com pessimismo? Ser adulto é ser amargo? Quero o doce! Quero noites com sol!
Quero prazo de validade infinita, pensamentos deliciosos como manhãs de domingo no campo. Um pouco de amor para amenizar os dias cheios de desabrigos emocionais. Alguém que me amenize.(em 27 de Março de 2008)
Mas ainda acredito que por mais difíceis que sejam as coisas. Por mais difícil que seja crescer, amar, viver, não podemos esquecer que o dia nasce todo dia.
Sentou-se à porta do mar naquele banco de sempre que antes estivera ocupado com um feliz casal que não sequer invejara.
Por um momento apenas sentiu inveja por ter chegado antes de si e sentado naquele banco de sempre.
Já era tarde. A noite caía há muito tempo e pensou se talvez não era hora de voltar para casa e dormir. Mas dormir já havia feito pouco antes, momentos antes de acordar e descobrir que seu peito inflava de dor de uma angústia já conhecida mas nunca desvendada.
Sentiu aquela dor outras e tantas vezes chorando-a compulsivamente, estontamente, perdidamente clamando por ajuda, por paz, por morte, por sono.
O que era aquela dor? E agora pensava: “o que é essa dor?” de que tempo vem? de que era? de que ponto? de que orgão? de que curva encefálica surge aquela dor?
Podia quase ver seu cérebro pulsando no lugar de onde surgiam aqueles pensamentos. Eram pensamentos? Ou simplesmente sentimentos? Era amor? Estava ali? Era a falta de amor que como neurotransmissor deficiente causava aquela demência de alegria?
E era realmente demente sua alegria? Era parte ou aparte de sua cabeca?
Nao soube explicar...Acho que nunca saberia.
Não porque fosse pouco inteligente, não porque era difícil a resposta, era por ter a sansação de não se perguntar o bastante sobre aquilo.
À porta do mar olhou pra frente e se sentiu sozinho mais uma vez. Aquele humor ruidoso das ondas nao ajudava seu coração a dormir, ou descansar apenas, talvez. Sentiu vontade de choramingar, achou-se velho demais para prestar-se a tal papel.
Velho demais! E o que era ser velho demais quando o tempo nao lhe diz os termos da vida? Quando a cada tempo que passa é só mais um dia a ser vivido exigentemente com graça? Porque era um dom essa tal de vida. Porque mesmo com toda aquela meia-palavra que nunca saía de sua boca, era preciso alegrar-se com o dom da vida.
Pros diabos a alegria! Pro inferno a obrigação da graça. Pros diabos sorrir quando se quer chorar. Talvez era chorar quando se quer chorar. Talvez era chorarm mais que ele queria. Talvez fosse gritar mais por ajuda. Ajuda! AJUDA! AJUDA-ME! ME AJUDA!
Me sacode! Me torce! Me vira pro outro lado, pelo avesso e tira de mim essa nódua que me mancha o peito. E sacode minhas poeiras do coração que ele já não quer mais ficar obsoleto, me aspira, me limpa, me passa um pano qualquer que me lustre.
Me escolhe e me leva, me restaura, me reforma, me transforma em outra coisa que seja mais útil a quem quer que seja, me doe, me troque, me liquide, me leiloe, me assuma, me colora, me assuma, me dê cor, me assuma, me dê cor, me colora e me assuma. Me assuma.
Quando era criança, ainda criança, ainda passarinho que nao sabia voar, percebeu que a mãe sempre o vestia com uma bonita camisa verde aos domingos pela manhã. Era a “camisa de ver Deus”. Por que não guardara aquela camisa? Por que se lembrara daquilo agora? Que fim levou a camisa verde de ver Deus? Deus a levou consigo? Virou pano de chão? Outra mãe passara a colocar em outro passarinho sua camisa verde de ver Deus? Que injusta a vida dos objetos!
Que injusto manter em velhas caixas empoeiradas aquele carrinho que tanto fez seus olhos brilharem. Que saudade de ter brilho nos olhos. Que vontade de não ser de fora o brilho que lhe apareciam agora.
Não distinguiu ao certo se eram estrelas, distantes transatlânticos ou os faróis a guiar os pássaros pela noite, aqueles brilhos.
Que festa estariam fazendo agora nos transatlânticos? Mas não havia poesia em transatlânticos – pensou por um segundo – Há! Há poesia nos transatlânticos porque há vida nos transatlânticos. E vida sem poesia, não é vida, é espectro, é imagem, é mentira.
Deixou-se gritar, mas não era o bastante. Gritar nunca era o bastante.
Um dia perfeito começa assim:
com o sol nascendo nos teus olhos
E nuvens brilhantes de alvoradas
De noites casuais
E um dia pode ser perfeito
Mesmo com chuva a tardinha
E perfeito também foi o relâmpago leve de sua voz
feito canção suave em dia de Natal
Um dia perfeito começa e termina assim:
Com rosas que se jogam ao mar
Com o brilho do sol em seus cabelos
Cada nota a delinear as ondas do seus cabelos
Espera que eu vou sorrir
Espera que eu quero conversar um pouco mais
Me conta a historia das tuas sardas
Me explica porque te acho tão linda
Esqueça a hora de ir embora
Subverta essa prisão e vem dormir do meu lado
Abra o peito pra me receber a qualquer hora
Porque é manhã do sol mais lindo que já vi
E dias assim são raros
Mas nunca raros
Quando amanheço do seu lado
Um dia perfeito começa assim...
Não costumo utilizar este espaço para fazer desabafos pessoais, mas em alguns momentos é necessário. E de certa forma, hoje não utilizarei para fazer desabafo, mas para fazer uma homenagem.
Há dois anos e meio cheguei ao Rio e depois de passar por vários lugares, passar vários perrengues, fui abrigado por uma família que se tornou propriamente minha família, E hoje nos despedimos de D. Sônia. Mamy, la postiça (como eu a chamava) me tratou com um carinho e generosidade difíceis de se encontrar. E é desses tipos de amores que por mais que façamos sempre parecerá pouco.
Hoje nos despedimos dela com uma oração de agradecimento, simplesmente não havia outra forma de nos despedirmos dela que não fosse agradecendo. Ela não queria choro, nem tristeza. Porém, por mais que tentássemos era impossível não chorar simplesmente porque o vazio deixado por ela é daqueles vazios deixados no final de uma festa muito boa. Quando no dia seguinte e nos próximos anos continuamos a falar dessa festa com uma saudade e um desejo de que ela se repita. Infelizmente jamais poderá se repetir.
Ela queria festa e música. Queria que cantássemos em especial "Can`t take my eyes off you" e fizemos de fato. E foi lindo. E tenho certeza que naquela hora ela dançou em algum lugar.
Mamy descansou, pois os dias estavam difíceis, sofridos.
E agora, só nos resta aguardar que ela esteja pronta e tenha preparado uma grande sopa paraguaia para nos receber algum dia no lado de lá.
Imagem do dia
Imagem de Patrícia Cohen Caminhos que seguem apesar da falta.
E viver tem dessas coisas. Um dia voce acorda com certeza ABSOLUTA de que vai chegar em casa ate meia-noite, dormir, descansar pra no dia seguinte cumprir religiosamente todas as obrigaçoes cabiveis a um jovem adulto de passagem.
E de repente, não mais que de repente, olha no relogio as 4:30 da manhã e pensa: "Puta que pariu. To fudido hoje. Mas ta bom demais." Quase uma entoação à velha canção: "Oh que isso aqui tá muito bom, isso aqui tá bom demais!"
E madrugada vai avançando e nada dessa noite acabar e dá-lhe risada, e dá-lhe paquera, e dá-lhe babado e vambora! É o dia que mal estå começando, é mais um sol que desponta no horizonte trazendo dias novos novamente. Amores que nascem ou renascem com a alvorada, casais que dançam na chuva ao sol de "Singing in the Rain" e o amor que desabrocha em qualquer coração embrutecido pela solidão. Não há um ser neste mundo, não há de maneira alguma, um ser que não queira estar ao lado de alguém. Quem diz que não é ruim da cabeça ou (doente do pé?) ou está de caô.
E vambora! O dia vai amanhecendo e de bar em bar a gente enche a cabeça e solta a língua. Nessas horas em que todos os gatos são pardos, somos todos apaixonados por todos. Posso estar só, mas sou de todo mundo e quem quiser que venha. Mentira. Não e pra qualquer um. Os caprichos do meu coração são bem específicos. Eu quero quem eu acho bem difícil porque se for fácil não tem graça.
E o melhor desses dias em que nada parece que vai acontecer é que justamente por serem improváveis possuem todas as possibilidades do mundo. Todos nós tínhamos a ínfima probabilidade de acontecer, se acontecemos é porque o maior acontecimento improvåvel já foi. Não serão os outros bem mais fáceis?
Ainda acho que só exista uma salvação para o mundo: o amor. Se isso for utopia, romantismo "ultra-passado", não me importa.
Ainda acho que o amor possa salvar o mundo.
Se nao for, o que explica essa felicidade que a gente sente quando simplesmente pensa em alguem que ama?
Nao precisa ser necessariamente amor de homem ou mulher, amor de filho, amor de mãe, de pai, amor que se tem pelo cãozinho bagunceiro ou pelo amigo meio "mala" e retardado que todos temos.
Amor pode salvar o mundo sim, não existe outra possibilidade. Existe um transbordamento de felicidade e esperança. Ninguém pode negar.
Quando não ha amor, ha solidão, amargura, tristeza, vazio, escuridão. Amor ilumina, resolve, transforma, emociona. Amor existe na vida. Em tudo o que ela representa.
Acho que somos seres tao medrosos que perder alguem que se ama faz com que amemos menos. E isso pode ser chamado de vida? Perder a possibilidade de ter uma existência plena de luz por medo?
Difícil pensar que motivos nos levam a desistir, a nos fechar, mas não ha remédio melhor...
Episódio de hoje: TUDO O QUE MUDA A VIDA
VEM AOS POUCOS, SEM PREPAROS DE AVISAR
Quantas vezes acordamos com o sol em nossa janela e vamos dormir com o barulho da chuva no telhado?
Quantas vezes acontece exatamente o contrário e é uma bela noite enluarada cheia de estrelas que fecha o dia chuvoso?
Quantas vezes na vida não achamos que nada tem saída e na verdade sempre tem?
Vivemos a fazer perguntas pela vida, indagando o real sentido de tudo o que nos acontece e nem sempre encontramos respostas.Nem sempre basta estarmos abertos para estas respostas, elas simplesmente não aparecem. Mas, por incrível que pareça, quando menos esperamos, de onde menos esperamos, surgem respostas.
A vida já é um verdadeiro milagre e todos os dias, a cada nova manhã, presenciamos este milagre. Pessoas mudam, pessoas se mostram, se escondem. Descobrimos todos os dias que nunca conhecemos aqueles com quem convivemos, não sabemos, ao menos, dos detalhes dos lugares por onde passamos.
Muitos detalhes preciosos passam na nossa frente e nem notamos. Um jardim com orquídeas no muro, uma janela com violetas floridas e bem cuidadas, uma casa com um detalhe diferente...Abrir os olhos não é tarefa fácil, mas é delicioso.
No meio disso tudo, fico sempre com a impressão de que todos os caminhos fazem sentido quando chegamos a um ponto. O tal "match point" tão bem definido por Woody Allen em seu filme. Tudo depende de pra que lado a bola vai cair.
Nao é de se espantar que tantas guerras aconteçam no mundo. Algumas vezes por causa de uma coisa muito simples, nós, simples mortais, também somos capazes de matar, trucidar, brigar simplesmente.
Nessas horas descobrimos o quanto as relações são delicadas, frágeis e quando sao cuidadas podem se transformar em verdadeiros pocos de magoa, decepcao e desentendidos.
Dificil dizer o que podemos fazer para que nao percamos o fio da meada. Ainda insisto na palavra "ética". Agir com os outros conforme gostaríamos que agissem conosco. Alem dessa, temos outra: comunicacao. Falar com o outro aquilo que esperamos, aquilo que pensamos. A omissão continua sendo, pra mim, a pior forma de autoritarismo.
Não deve realmente ser fácil dizer algo que nos magoou ou simplesmente dizer a verdade. Verdade? E o que vem a ser verdade? Essas palavrinhas que vivem insistindo em aparecer: verdade, mentira, felicidade... O que significam? Que efeito possuem em nossa existência?
O filosofo Kant dizia que o ser humano nasceu dotado de razão e da liberdade. Ambas se complementam e se fiscalizam. A razão não existe para que deixemos de fazer aquelas coisas que nossa intuição diz, porque intuição ja faz parte da razao. A parte da razão que nao temos acesso atraves do pensamento.
Para Kant, a razão vem potencializar a capacidade humana e sua liberdade de agir. Ele estava falando de ética.
É só pensar em você
Que muda o dia
Minha alegria dá pra ver
Não dá pra esconder
Nem quero pensar se é certo querer
O que vou lhe dizer
Um beijo seu
E eu vou só pensar em você
Se a chuva cai e o sol não sai
Penso em você
Vontade de viver mais
Em paz com o mundo e comigo
Se a chuva cai e o sol não sai
Penso em você
Vontade de viver mais
Em paz com o mundo e consigo.
Episódio de hoje:DOMINGOS COM CHUVA E TALENTOS SEM AMOR
Pode um artista fazer sua arte apenas tecnicamente? É possível ser artista sem alma?
Que pensavam artistas como Leonardo da Vinci ou Mozart? Quando pintava ou tocava era apenas a técnica que contava?
E o domingo amanheceu com chuva e junto com a chuva o pensamento mais uma vez vagueou pela questão do amor. Pela questão do que importa manter ou o que necessita ser deixado para o passado.
Sei que muitos sentimentos são mantidos numa caixa qualquer que não sabemos se poderá ser aberta algum dia (ou se queremos). Mas poder ou querer passa longe de precisar. Para seguir em frente, para transformar-se, é preciso mexer em velhas caixas, revirar e jogar fora coisas que não precisamos mais, que não nos fará falta, apenas servirão em nossa memória como aprendizagem.
Acho que assim é a solidão. Vamos reunindo antigos papéis, antigas histórias e nos recusamos a jogar tais coisas fora. Os solitários sabem do que estou dizendo.
Está sendo difícil deixar pra trás essas velhas poeiras.
Solidão é como um domingo com chuva. Triste e sem graça, mas tem um certo charme.
Téo e a Gaivota
Marcelo Camelo
É de imaginar bobagem
quando a gente liga na televisão
toda dor repousa na vontade
todo amor encontra sempre a solidão
todos os encontros todos os poemas
manda me avisar
todos os embates todos os dilemas
manda me avisar
manda me avisar eu sei
todo ser humano
pode ser um anjo.
Don't get any big ideas
They're not gonna happen
You paint your smile
And fill the holes
There'll be something missing
Just when you found it
It's gone
Just when you feel it
You don't
It's gone forever
She stands stark naked
And she beckons you to bed
Don't go, you'll only want
To come back again
So don't get any big ideas
They're not gonna happen
You'll go to Hell
For what your
Dirty mind is thinking
And now that you found it
It's gone
Now that you feel it
You don't
It's gone forever
Não se esqueceu de como chegava lá. Quando fechava os olhos durante todos aqueles anos se lembrava claramente das cores das casas, da sinuosidade das ruas, do cheiro. Era como se tivesse vivido aquela história na semana passada e após um breve período de ausência, retornava.
Não. Anos se passaram até que aquele dia finalmente chegasse... E ele o esperou pacientemente durante todo aquele tempo. Sentia que sua vida fazia sentido para o reencontro. Muitos desencontros até ali, muitas viagens, muitas histórias se passaram até ali, não abriria mão.
Desceu do carro e olhou ao seu redor reconhecendo o lugar. Em seu peito veio aquela mesma sensação arfejante da primeira vez. Seu coração acelerou, recordou cada passo, cada palavra, cada sentimento e com medo pensou se talvez o passado não tivesse apagado da memória aquela história, seria uma novela escrita e assistida por um só?
Suas mãos geladas se encaminhou até seu rosto no movimento conhecido de quando ele estava ansioso ou nervoso. Era um passar as mãos nervosamente pelo rosto como se limpasse uma sujeira grossa, como se estivesse eliminando uma máscara de sua fronte. Sentiu vontade de chorar. Sentiu vontade de correr, de ir embora, de ficar, de gritar, de se esconder.
Mas onde estava? Onde finalmente encontraria a razão de seu retorno? Onde finalmente reveria o motivo de tanto amor guardado no peito? Não vivia num romance do século XVIII, mas sabia que já guardara aquele amor mesmo antes de conhecer e depois de conhecido sabia que ninguém poderia superar...
Não queria superar... Só queria que fosse verdade.
Imagem do dia
Beco da Saudade foto de Antonio Manuel Pinto da Silva
ASSISTAM
MAMMA MIA! em cartaz nos cinemas... Delicioso musical com Meryl Streep...
Nota 9
É um ponto de vista esse Brasil. Da vista de um ponto de cada brasileiro temos um país diferente. Temos o país tomado pela corrupção dos políticos gordos, temos o país rodeado de belezas naturais exuberantes, temos o país rico, temos o país pobre, temos o povo alegre e o povo que só quer carnaval (e ainda não entendi qual o problema de se querer carnaval).
Os intelectuais se acham patriotas demais, mas odeiam os ufanistas. Os ufanistas odeiam os que olham o mundo ao redor. Há ainda os ufonistas, aqueles que ou vêem seres de outro planeta (de verdade) lá pelas bandas das Chapadas ou que vêem turistas como malditos gringos que vêm foder nossa terra.
Se o Brasil é tão ruim assim, então por qual motivo tantos permanecem e tantos fazem sucesso? Será que não podemos voltar à baila com “Brasil: Ame-o ou Deixe-o”? Só amando um país como o Brasil é que podemos transformá-lo em algo realmente decente (e cá entre nós, o difícil não é amar o Brasil, o difícil é ter coragem de limpá-lo, torná-lo decente).
Verdade que cada vez mais os interessantes e interessados são cada vez mais raros. Ô geraçãozinha chata essa minha. Ô gentezinha cheia de questões pessoais e sem nenhum olhar pra fora. Em vez de “Que país é este?” passou da hora de cantarmos “Que nação é esta?” pra ver se todo mundo se implica (inclusive eu).
Tornou-se comum a falta de dignidade, a sociedade desigual, somos complacentes com quem fala mal (geralmente saio do sério quando alguém simplesmente fala mal do Brasil – perco o amigo mas não perco a “piada” – se for o Brasil a tal piada).
Até quando esta nação vai fechar os olhos para o fato de que depende muito de cada um, de que não é só nas urnas que se resolvem os problemas?
Resolvem-se problemas começando em casa. Como vamos ensinar ética aos nossos filhos se nossas “empregadas” não têm carteira assinada e quando dizemos: “Deixa sujo aí que a empregada vem amanhã”. Como vamos reclamar dos governantes se estamos sempre pedindo ou dando um “jeitinho” nas questões? Faríamos diferente se estivéssemos lá no lugar deles?
Até quando seremos essas eternas crianças que acham tudo de brincadeirinha. A violência está chegando aos nossos portões muito mais rápido do que imaginamos. Vejamos nossos colegas de trabalho, nossas “empregadas”. Vejamos onde eles vivem. Essa realidade não está distante de nós. Está em nós, pertence a nós, já nos invadiu. Somos uma mesma nação. Um mesmo corpo. Se a cabeça vai mal, tudo perece.
Imagem do dia:
Texto do dia:
CREDO POLÍTICO
Rui Barbosa
Meu País conhece o meu credo político, porque o meu credo político está na minha vida inteira. Creio na liberdade onipotente, criadora das nações robustas; creio na lei, emanação dela, o seu órgão capital, a primeira das suas necessidades; creio que, neste regímen, não há poderes soberanos, e soberano é só o direito, interpretado pelos tribunais; creio que a própria soberania popular necessita de limites, e que esses limites vêm a ser as suas Constituições, por ela mesma criadas, nas suas horas de inspiração jurídica, em garantia contra os seus impulsos de paixão desordenada; creio que a República decai, porque se deixou estragar confiando-se ao regímen da força; creio que a Federação perecerá, se continuar a não saber acatar e elevar a justiça; porque da justiça nasce a confiança, da confiança a tranqüilidade, da tranqüilidade o trabalho, do trabalho a produção, da produção o crédito, do crédito a opulência, da opulência a respeitabilidade, a duração, o vigor; creio no governo do povo pelo povo; creio, porém, que o governo do povo pelo povo tem a base da sua legitimidade na cultura da inteligência nacional pelo desenvolvimento nacional do ensino, para o qual as maiores liberalidades do tesouro constituíram sempre o mais reprodutivo emprego da riqueza pública; creio na tribuna sem fúrias e na imprensa sem restrições, porque creio no poder da razão e da verdade; creio na moderação e na tolerância, no progresso e na tradição, no respeito e na disciplina, na impotência fatal dos incompetentes e no valor insuprível das capacidades.
Rejeito as doutrinas de arbítrio; abomino as ditaduras de todo o gênero, militares ou científicas, coroadas ou populares; detesto os estados de sítio, as suspensões de garantias, as razões de Estado, as leis de salvação pública; odeio as combinações hipócritas do absolutismo dissimulado sob as formas democráticas e republicanas; oponho-me aos governos de seita, aos governos de facção, aos governos de ignorância; e, quando esta se traduz pela abolição geral das grandes instituições docentes, isto é, pela hostilidade radical à inteligência do País nos focos mais altos da sua cultura, a estúpida selvageria dessa fórmula administrativa impressiona-me como o bramir de um oceano de barbaria ameaçando as fronteiras de nossa nacionalidade.
"Resposta a César Zama". Discurso no Senado Federal em 13 de outubro de 1896.
O TIM Festival 2008 finalmente divulga sua programação, composta por dezenove atrações internacionais e dez nacionais. As datas do evento serão 21 e 27/out nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Vitória. Os ingressos estarão a venda a partir do dia 16.
Entre os novos nomes confirmados para a edição deste ano estão os ingleses do Neon Neon, o guitarrista americano Bill Frisell, o trompetista polonês Tomasz Stanko, o italiano Enrico Pieranunzi, Gossip Gossip, o DJ inglês Yoda, a dupla canadense de indietronica Junior Boys e os brasileiros Marcelo Camelo (em show solo), Sany Pitbull e Cérebro Eletrônico. Eles vêm se juntar aos já anteriormente anunciados Sonny Rollins, Paul Weller, Carla Bley, Stacey Kent, Klaxons, The Gossip, Esperanza Spalding, Kanye West, Gogol Bordello, MGMT e The National.
Um palco chamado “Novas Raves” vai juntar na mesma noite os americanos do The Gossip e os ingleses Klaxons e Neon Neon. O “Ponte Brooklyn” por sua vez terá MGMT e The National. Em São Paulo eles ganham a companhia da banda brasileira Cérebro Eletrônico.
A noite Brilhando no Escuro é toda do rapper Kanye West e seu grandioso show Glow in the Dark.
“Bossa Mod” será palco de shows do britânico Paul Weller e o brasileiro Marcelo Camelo. Tim Maia será homenageado no projeto “Tim no TIM” do coletivo paulista Instituto, que fará uma releitura do cultuado disco Racional.
Já o “TIM Festa” reunirá várias vertentes do rock e eletrônica: Dan Deacon, DJ Yoda, Sany Pitbull, Música Magneta, Junior Boys, Gogol Bordello, Switch, Leandro HBL Video Artista e Database.
A quarta noite na Arena de Eventos do Parque do Ibirapuera e a terceira e última noite da Marina da Glória, no Rio, promovem uma grande festa com várias atrações da música pop e eletrônica.
Desde a sua primeira edição, em 2003, o TIM Festival já apresentou ao público brasileiro um total de 175 atrações, sendo 57 nacionais e 118 estrangeiras. Este ano, o elenco soma 29 atrações de seis nacionalidades diferentes. Um festival de música sem fronteiras.
As sempre presentes atrações do jazz serão separados entre damas e cavalheiros:
“Sophisticated Ladies” apresenta três estrelas americanas do jazz de diferentes gerações - a veterana pianista Carla Bley, a cantora Stacey Kent e a jovem cantora e contrabaixista Esperanza Spalding, com a participação do violonista brasileiro Chico Pinheiro. Já “The Cats” traz consagrados nomes como o guitarrista norte-americano Bill Frisell, o trompetista polonês Tomasz Stanko e o pianista italiano Enrico Pieranunzi.
23/10, 20H30 Bossa Mod: Marcelo Camelo / Paul Weller
24/10, 20H30 The Cats: Bill Frisell / Tomasz Stanko / Enrico Pieranunzi
25/10, 20h30 Rosa Passos
Arena de eventos - parque Ibirapuera
22/10, 21h Brilhando no Escuro: Kanye West
23/10, 21h Novas Raves: The Gossip / Klaxons / Neon Neon
24/10, 19h Tim Festa: Dan Deacon / DJ Yoda / Sany Pitbull / Música Magneta / Junior Boys / Gogol Bordello / Switch / Leandro HBL Video Artista / Database
25/10, 21h Ponte Brooklyn: Cérebro Eletrônico / MGMT/ The National
25/10, 1h Tim no Tim: Instituto apresenta “Tim Maia Racional”
25/10, 20h The Cats: Bill Frisell / Tomasz Stanko / Enrico Pieranunzi
25/10, 21h Novas Raves: The Gossip / Klaxons / Neon Neon
25/10, 22h Bossa Mod: Marcelo Camelo / Paul Weller
26/10, 1h Tim Festa: Dan Deacon / DJ Yoda / Sany Pitbull / Música Magneta / Junior Boys / Gogol Bordello / Switch / Leandro HBL Video Artista / Database
Eu estava querendo conversar com você dia desses. Queria te dizer coisas que sei já ter dito, mas vontade de dizer tudo novamente.
Dizer desse amor e desse ciúme que não posso ter. Das vezes que ouvi aquela música que você tanto gosta e de não ter te encontrado por perto pra te mostrar. Vontade de escutar o coração que bate em seu peito e sorrir feito criança que descobre um novo brinquedo.
Era noite outro dia e a maresia não me deixou ver o que vinha acolá. Não conseguiu me segurar, nem me desaparecer. Me tornei bicho-onda que vai e vem pelas praias brancas cheias de passos. Me vi nu.
Não sei bem, mas pensei na possibilidade de ir te visitar e te ver fazendo aquele café na xícara amarela, partindo o pão e passando geléia pra me oferecer. Lembrei do copo com água colocado ao lado da cama pra que eu bebesse durante a noite. Procurei.
Coisas tolas de quem ama essas de lembrar do supermercado como arena de exibição. Da orelha em super close-up na câmera posicionada em meus dedos, da fotografia colorida revelada em papel brilhante na memória. Tudo é cinema entre mim e você. Tudo é fotografia. Tudo é trilha sonora com disco de ouro. Tudo é você em mim, de alguma forma.
Imagem do dia:
Cores...
Foto de Pedro Brazão Pires
MÚSICA
Ouça um dos discos mais delicados que já ouvi ultimamente.
Comme si de rien n'était de Carla Bruni Vale a pena...
É importante às vezes dar-se um tempo e verificar o que de importante tem acontecido, o que precisa acontecer e por quais caminhos queremos seguir.
Não e um caminho simples. Muitas vezes agimos sem notar que tipo de pessoa estamos nos tornando e então vem a pergunta: Esta é a pessoa que eu quero me tornar? E quando a resposta é não então passou da hora de mudar o rumo.
Período sabático produtivo.
O tempo passa rápido e mais uma pergunta se anuncia: o que tem ficado?
Vivemos num mundo tão caótico que nem ao menos sabemos qual foi a ūltima mūsica que ouvimos. Vai ai a pergunta (mais uma pro rol): Você se lembra qual foi a ultima musica que ouviu? Pode começar a se ocupar disso agora. Muita gente não se lembra.
Olhe à sua volta, veja quantas pessoas no ônibus, na rua, nas filas estão com fones de ouvido conectados aos seus i-pods. Quantas pessoas potencialmente interessantes deixam de se encontrar, de trocar idéias porque estão com aquele aparelhinho e nem sequer se lembram da ūltima mūsica que tocou ali mesmo?
O economista e filósofo francês Serge Latouche propõe uma revolução cultural: O Decrescimento Sustentável.Trata-se de uma mudanca de comportamento mais ativa para salvar o planeta do esgotamento de recursos naturais. Há tambem um movimento que usa o jargão STOP, pregando uma vida mais lenta. E pra pensar novamente: a cada dia novas tecnologias são implementadas em nosso cotidiano para que tenhamos mais tempo livre: microondas, máquinas de lavar, de secar, carros cada vez mais velozes e no entanto, estamos cada vez mais sem tempo.
E me lembro da frase que li na porta de um dos salões do convento em que estive para participar das filmagens de um longa-metragem: Não adianta correr se você não sabe onde quer chegar.
Imagem do dia:
Por uma vida menos ordinária. Foto de Hugo Fernades
LEIA!!!!!!
Como Vivem os Mortos de Will Self.
Editora Alfaguara
Leitura indispensável para os questionadores da nossa atual sociedade e para os que não questionam também para que pensem um pouco mais sobre onde vamos chegar.
Nota 10
E um cisco nublou sua visão. As imagens se tornaram confusas e sentiu por um minuto que viver é não ter certeza de cois'alguma.
Pensou na felicidade que sentia ao ver um casal dançando no meio da rua de forma despretensiosa e que o tempo pode fazer esquecer, mas também fortalece.
Se tudo envelhece não entendia por qual motivo ficamos tão presos ao que é aparente. A imagem é mais importante? Mesmo?
Resistiu bravamente ao medo e quis não se deixar levar.
Viu um pássaro estranho na praia na última noite e ficou observando seu jeito de caminhar e se preparar para agarrar uma presa, um inseto, visto a metros de distância.
Viu beleza naquilo...
Viu beleza nas cores dos semáforos que junto aos postes avermelhados das luzes de mercúrio formava um grande conjunto de verde e vermelho.
Viu que aquilo era bom e começou a cantar. Da música não se lembra, só se recorda de seus dedos que estavam emocionados e teve saudade do arrepio do amor.
O amor...velho e recorrente assunto.
Preferia a fantasia à realidade porque era mais fácil sofrer por algum romance imaginário do que encarar a difícil realidade dos amores que se esquecem de amar. Dos amores em preto & branco.
Chorou.
Não. Não chorou.
Eram suas lágrimas defendendo seus olhos do tal cisco.
Mas as lágrimas o lembraram de chorar. Porque chorar era bom, mas era ruim. Chorar lhe trazia a paradoxal sensação de coragem e acobardamento, entre derrota e vitória. Chorar lhe dizia que seu tempo estava nublado.
E nublada estava sua visão.
E pensar que tudo começou com um cisco.
Imagem do dia:
Felicidade é poder cheirar flores.
foto de Filipe Pombo
A beleza se manifesta em coisas que nem ao menos notamos.
Na criança que se encanta com as luzes de Natal, no cachorro que olha atento para o dono esperando que ele lhe jogue a bolinha verde que ele vê em preto e branco, no jovem estudante que se senta embaixo de uma árvore e sorri encantado com a história contada no livro que lê.
No olhar. Sobretudo no olhar. A beleza se manifesta nos olhos de quem pede ajuda, nos olhos de quem sorri, nos olhos de quem brinca, nos olhos de quem se encanta, nos olhos de quem ama.
É um despropósito e um crime não prestar atenção nisso. É um despropósito não reparar nas folhas que pousam no chão depois de cair das árvores nas tardes amareladas de outono. É um despropósito não prestar atenção no pipoqueiro que mexe seu sustento com uma colher de pau enquanto pensa no filho que andou pela primeira vez na noite de ontem. Ele andou do criadinho perto da cama até o guarda-roupa.
São nas coincidências que está a beleza. Na vontade de beijar aquela pessoa que nos fez brilhar...os olhos. Na vontade de conversar um pouco mais porque foi tudo tão deliciosamente delicado. E quando se percebe, os cabelos estão brancos e o sorriso continua o mesmo de antes, um pouco menos vigoroso, mas do mesmo modo juvenil. E quando se percebe passa-se em frente a um lugar que toca uma música e dá vontade de dançar ali mesmo, no meio da rua.
E quando se percebe, todo aquele tempo guardado no peito com amarguras das esperanças destruídas, eis que um dia aparece um novo amor... que pode ser amor velho ou velho amor.
Vi um casal de velhinhos dançar na pista da Lagoa. E tive vontade de chorar. E como qualquer pessoa, me emocionei.
...e eu que por mais esforço que faça, que por mais beijos que encontre, que por mais sonhos que tente construir, não consigo, não quero e nem sei se posso...
...esquecer?...
...sublimar?...
...jogar pra debaixo do tapete?...
eu que por mais esforço que faça, que por mais beijos que encontre, que por mais sonhos que tente construir, não consigo, não quero e nem sei se posso...
...perdoar?...
...passar por cima?...
...sobrevoar?...
eu que por mais esforço que faça, que por mais beijos que encontre, que por mais sonhos que tente construir, não consigo, não quero e nem sei se posso...
...me animar?...
...me encantar?...
...desistir?...
eu que por mais esforço que faça, que por mais beijos que encontre, que por mais sonhos que tente construir, não consigo, não quero e nem sei se posso...
...desamar?...
...desarrumar?...
...deixar de te amar?...
eu que por mais esforço que faça, que por mais beijos que encontre, que por mais sonhos que tente construir, não consigo, não quero e nem sei se posso...
continuo e não mais do que isso...
continuo no caminho,
e ainda, como se nada houvesse antes ou depois, ainda, como se tudo só fizesse sentido com você, ainda, como se meus olhos não brilhassem por outra coisa, ainda, como se minhas mãos não buscassem nada além, ainda, sem medida, sem medo, ainda te amo.
Aparentemente, de vez em quando os adultos têm tempo de sentar e contemplar o desastre que é a vida deles. Então se lamentam sem compreender e, como moscas que sempre batem na mesma vidraça, se agitam, sofrem, definham, se deprimem e se interrogam sobre a engrenagem que os levou ali aonde não queriam ir. Os mais inteligentes até transformam isso numa religião: ah, a desprezível vacuidade da existência burguesa! Há cínicos desse gênero que jantam à mesa do papai: "Que fim levaram nossos sonhos de juventude?", perguntam com ar desiludido e satisfeito. "Desfizeram-se, e a vida é uma bandida." Detesto essa falsa lucidez da maturidade. O fato é que são como os outros, são crianças que não entendem o que lhes aconteceu e bancam os durões quando na verdade têm vontade de chorar. Página 21
Acho que, quando se toma a decisão de morrer, justamente porque se considera que ela faz parte da ordem natural das coisas, é preciso fazer tudo suavemente. Morrer deve ser uma delicada passagem, um escorregão acolchoado para o repouso. Página 23
Certas pessoas são incapazes de captar no que contemplam o que dá a essas coisas a vida e o sopro intrínsecos, e passam o tempo a discorrer sobre os homens como se se tratasse de autômatos, e sobre as coisas como se não tivessem alma e se resumissem ao que pode ser dito sobre elas, ao sabor das inspirações subjetivas (página 33)
O que faz a força de um soldado não é a energia que ele concentra ao intimidar o outro, enviando-lhe um monte de sinais, mas é a força que ele é capaz de concentrar em si mesmo, ficando concentrado em si mesmo.(página 40)
Pela primeira vez alguém se dirigia a mim dizendo meu nome de batismo. Ali onde meus pais recorriam a um gesto ou uma bronca, uma mulher, que agora eu achava que tinha os olhos claros e a boca sorridente, abria caminho para o meu coração e, ao pronunciar meu nome, estabelecia comigo uma proximidade da qual até então eu não fazia idéia. Olhei ao redor para um mundo que, subitamente, se enfeitou de cores. (página 44)
Não há ninguém mais sonhador que o cínico. É porque ainda acredita, do fundo da alma, que o mundo tem um sentido e porque não consegue abrir mão das baboseiras da infância que ele adota a atitude contrária. "A vida é uma bandida, não creio em mais nada, e dela gozarei até a náusea", são as palavras perfeitas do ingênuo contrariado.Página 58
"Está em cima da hora", me disse Lucien, "a sessão é à uma da tarde". No calor da sala, à beira das lágrimas, feliz como eu nunca tinha sido, segurei sua mão, tépida pela primeira vez depois de meses. Sabia que um inesperado afluxo de energia o levantara da cama, lhe dera a força de se vestir, a sede de sair, o desejo de dividirmos mais uma vez esse prazer conjugal, e também sabia que era o sinal de que restava pouco tempo, o estado de graça que precede o fim, mas isso não me importava, e eu queria apenas aproveitar aqueles instantes roubados do jugo da doença, sua mão quentinha dentro da minha e as vibrações de prazer que nos percorriam, a nós dois, dando graças aos céus, pois era um filme que podíamos saborear juntos.
Acho que ele morreu logo depois. Seu corpo resistiu mais três semanas, mas seu espírito se foi no final da sessão, porque ele sabia que era melhor assim, porque me dera adeus na sala escura, sem tristezas pungentes demais, porque assim encontrara a paz, confiante no que tínhamos nos dito ao trocarmos palavras, olhando juntos a tela iluminada onde se contava uma história. (página 79)
Trechos do livro A Elegância da Ouriço de Muriel Barbery Ed. Companhia das Letras
Estreiteza de pensamento essa história de que o amor pode esperar. Estreiteza de pensamento porque o amor espera, mas espera magoado. E fica à espreita, esperando a primeira oportunidade de se mostrar e pedir alento. O amor não exige urgência, mas é urgente porque em cada coração vazio há um tapete sempre limpo na porta destrancada. Nunca se tranca a porta. Quem acredita nisso vive em ilusão ao contrário.
É uma portinha linda essa do coração. Na mesma parede há uma janela com cortininha de renda branca que balança de vez em quando com o vento que bate nela. Uma portinha colorida, talvez azul, em alguns é amarela, mas sempre colorida, no meio daquela enorme parede vermelha. Na janela há ainda um vasinho de violetas rosas, sempre florida quando cuidada...
Quando se diz que não tem amor é porque há um velho rabugento de chinelos velhos e pijama puído que ora arrasta seus chinelos, ora fica deitado no sofá também gasto em frente à TV. Ele não abre a porta nem ao carteiro que vem de vez em quando trazer cartões postais dos outros corações vizinhos que tentam fazer o velho sorrir um pouquinho com a felicidade deles. Não recebe também o padeiro que vem de porta em porta:Ó o pãaaaao!.
O amor não consegue entrar porque simplesmente o velho não lhe abre a porta. Mas ele fica lá, cuidadoso e paciente à espera. Porque simplesmente não tem outra alternativa.
Quando uma porta se abre, tudo o que estava escuro por dentro se ilumina e mostra suas cores. A poeira que estava encrostada se vai e deixa todos os móveis como novos. O sorriso volta aos rostos e a chaminé que estava sempre parada volta a funcionar mandando para o céu bolinhas de algodão que se transformarão em nuvens e cairão em forma de chuva fina deixando as florestas mais verdes, as flores mais coloridas e os jovens em longa felicidade.
O amor rejuvenesce. O amor alivia. O amor apaga do peito aquele vazio que se instalou. Somente o amor é capaz de fazer isso...
E quando finalmente, um dia, o velho rabugento - após centenas de tentativas - recebe o amor, seu rosto se torna alegre, o pijama puído é agora gracioso e os pássaros voltam a circundam seus telhados...
Não desejando temer o amor, devíamos abrir as portas para ele.
Texto de hoje:
Dance With Me
Nouvelle Vague
Let's dance little stranger
Show me secret sins
Love can be like bondage
Seduce me once again
Burning like an angel
Who has heaven in reprieve
Burning like the voodoo man
With devils on his sleeve
Won't you dance with me
In my world of fantasy
Won't you dance with me
Ritual fertility
Like an apparition
You don't seem real at all
Like a premonition
Of curses on my soul
The way I want to love you
Well it could be against the law
I've seen you in a thousand minds
You've made the angels fall
Won't you dance with me
In my world of fantasy
Won't you dance with me
Ritual fertility
Come on little stranger
There's only one last dance
Soon the music's over
Let's give it one more chance
Won't you dance with me
In my world of fantasy
Won't you dance with me
Ritual fertility
Take a chance with me
In my world of fantasy
Won't you dance with me
Ritual fertility.
O amor pode ser como docinhos nas pontas dos dedos... (cena de Fabuloso Destino de Amelie Poulain)
Ainda de Amelie... A sorte é como o Tour de France: esperamos tanto e passa tão rápido. Quando chegar a hora, precisa saltar sem hesitar. Se deixar essa chance passar, então, com o tempo, seu coração ficará tão seco e quebradiço que nunca mais será capaz de amar alguém.
E lá vem chegando mais uma vez a tal data estranha. Não consigo achar normal, nem consigo ficar à vontade. É sempre uma coisa "complicadinha" esse tal de aniversário.
28 anos.
E dizem que é tempo do retorno de Saturno. E dizem que é o período da crise, onde grandes mudanças acontecem. Eu começaria por mudar minhas escolhas amorosas. Por que cargas d'água eu sempre amo quem eu sei que não vai me levar a lugar algum? E quanto tempo eu ainda vou precisar viver pra descobrir e me convencer de que talvez esse papo de namoro, casamento e coisas afins são histórias pra boi dormir? Talvez nunca.
E no peito vem o velho desejo da casinha fofa com o cachorro grande pra se passear aos domingos. Tolos desejos sem fim.
E nessa onda coisas necessárias vão se tornando obsoletas e pouco cuidadas. Eu vivo pra consertar. E escutei uma frase ontem que me tocou: "E veio uma sensação de felicidade. E junto com ela angústia. Por que as duas sempre estão juntas?" Me pergunte isso.
Vários dias fora de casa. Vários dias sem ver meus amigos, sem estar com minhas coisas. E a última vez que fiquei mais do que um final de semana fora foi no ano passado. Um mês. E não queria voltar. Na verdade, acho que nunca quero voltar porque simplesmente não me sinto parte de lugar algum.
E se eu for de algum lugar? E se o amor existir mesmo, mas se fosse fácil de se encontrar não daríamos tanto valor?
ASSISTA!
PUSHING DAISIES seriado da Warner. Toda quinta, 21h.
Seriado lindo, delicado e emocionante...Eu não perderia.
Veio-me à cabeça a imagem daquela velha senhora negra, de cabelos grisalhos meio sapecados de sol, ela que tão simplesmente, com muito cuidado pega seu cachimbo -desbotado de tanto tempo que já deve ter ficado em sua boca pelos anos afora - retira dele o fumo usado, limpa com muita calma, coloca um novo fumo e recomeça aquele ritual diário.
Era um hotel e eu tinha apenas cinco anos e não imaginava que aquela cena tão grotesca pudesse hoje me emocionar tanto. Não é simplesmente pelo fato de uma velha senhora negra que fuma o seu cachimbo, dessas senhoras podemos ver em qualquer lugar, é muito mais pela expressão que ela trazia em seu rosto.
Política? Eleições? Ora! Qual o quê! Ela, que naquela época já tinha seus 80 anos tinha passado por muito mais. E Goiás tem esse poder de nos encantar. O que acontecia naquele lugar há 80 ou 90 anos atrás? Não consigo imaginar de onde ela veio, só consigo imaginar que aquele rosto era sim queimado daquele sol insensível que não perdoa ninguém, mas seu sofrimento marcado no rosto se tornava leve demais quando seu sorriso sincero que só uma vó sabe pronunciar dizia que o dia ia passar, a noite ia passar e a vida continuaria.
E eu que tinha apenas cinco anos... Mal sabia que as minhas maiores angústias de criança não tinham nada a ver com o medo imenso que eu sentia, eram apenas fumo usado no cachimbo da velha. Chego a sorrir de saudades e nostalgia ao me lembrar que ela estrategicamente sentava-se à beira do fogão de lenha. Ficava muito mais fácil acender seu fumo desse jeito.
Muitos podem estar imaginando a figura de uma preta velha, como aquelas imagens utilizadas no candomblé, mas não é tão simples assim. É muito mais, é a imagem de alguém que sabe muito e nem precisou estudar em escola de branco para aprender. Ela aprendeu foi com cada machucado e cada calo que se formavam em suas mãos, ela aprendeu foi com os meses que se seguiam sem chuva pelo sertão do cerrado, ela aprendeu que para se vestir bastava seu velho vestido e um chinelinho para arrastar pela casa durante o dia.
Vaidade pra quê? Quando se esgueira pelos campos em busca de comida e trabalho não precisa de muita coisa, basta coragem. Basta coragem.
Eu, hoje, com meus anos de vida e de pouca experiência, me achando o grande líder do mundo. Ah! O mundo está nas minhas mãos e pouco importa quem está na minha frente, eu sou tão bom que ninguém é páreo pra mim. As conquistas, a beleza, a inteligência... vejo tudo isso valer tão pouco quando não se pode dividir com alguém que se ama.
Vejo a vaidade e essa busca pela perfeição valer tão pouco quando basta ouvir um "eu te amo" para que se tenha certeza da beleza que trazemos dentro de cada um de nós. Que me desculpem os feios, mas beleza é fundamental e também inteligência, sensibilidade e principalmente aquele treco chamado amor.
E amor é um pouco isso, é pegar o fumo velho, jogá-lo fora, cuidadosamente limpar o cachimbo, com muita calma colocar um fumo novo, acendê-lo naquele fogão de lenha e cuidar para que ele não se apague. E assim ficar ali, com seu cachimbo, apreciando a vida, o dia e vendo o sol quente do cerrado se pôr, tranqüilamente, anunciando que o dia acaba, a noite vai acabar, mas a vida...bem, essa continua fabricando sonhos e descobrindo novas formas de se fazer.
Às vezes tenho idéias felizes,
Idéias subitamente felizes, em idéias
E nas palavras em que naturalmente se despegam...
Depois de escrever, leio...
Por que escrevi isto?
Onde fui buscar isto?
De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu...
Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta
Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?...
Parecia querer encontrar em outras pessoas, tudo o que havia encontrado nele.Talvez o perfume, o jeito, os olhos, a voz, o brilho. Queria que sua vida voltasse a deixar de ser monótona. Queria que seus dias fossem realmente especiais, queria fazer o que tinha pra fazer de modo especial. E por mais difícil que fosse qualquer dia, mantinha sua esperança contida de não desanimar frente ao desejo de tê-lo novamente em frente aos seus olhos. Porque acreditava que amor de verdade tem dessas coisas, desses desencontros depois do encontro. Não tinha medo de absolutamente nada, apenas de estar sozinho numa dessas manhãs em que se acorda com o silêncio da casa.
Dormir então estava fora de questão porque não queria acordar nessa tal manhã. Chorar, nem pensar. Tinha receio de que uma lágrima se transformasse em cachoeiras feito Alice no País das Maravilhas e que sua vida se transformasse em mofo. Não era bom pensar em mofar. Tinha muito a fazer, muito a viver, muito a sentir. As cores lhe pareciam menos coloridas e os sons pareciam menos interessantes.
Era como aquele pingo de chuva que viu uma vez caindo de um toldo quando olhava a rua pela janela. Queria mesmo ser aquele pingo de chuva porque acreditava que ele sim era feliz sem maiores preocupações além de partir do toldo e saltar ao chão e se renovar e cair do toldo e ir ao chão. Não. Não era o mesmo pingo que caía constantemente, eram filas de pingos. Seria apenas mais um pingo, como as lágrimas e mais uma vez se lembrara de Alice e sua tristeza melancólica.
Eu gosto de você. Eu gosto de você. Eu gosto de você. Eu gosto de você. Quantas vezes havia escrito aquilo durante a noite? Eu gosto de você. Eu gosto de você. Eu gosto do que eu vejo em você. Eu gosto do que eu sinto por você. Eu gosto do que eu tenho ao seu lado. Eu gosto do seu gosto e dos seus gostos. Gosto de gostar das mesmas que você. Gosto de te fazer gostar das coisas que eu gosto. Gosto de te fazer sentir o meu gosto.
E era sua saudade quem lhe atravancava o sábado. Era sábado e era sua tristeza que fazia a noite passar mais lenta.
É estranho. O tempo passa tão rápido e no entanto algumas coisas permanecem vivas.
Imagem do dia:
Em busca dessa delicada alegria.
Foto de Adriano Batista
Texto do dia:
Base Primitiva Revisitada
Júpiter Maçã
Existe profundo no sonho
Uma floresta futurista
Deuses astronautas, em plena nudez
Existe a terra, o fogo, água e o ar
Longe existem chances para o meu amor
Na existência dos profundos
Uma floresta primitiva
Colônias da Terra, colônias do céu
Existe a terra, o fogo, água e o ar
Longe existem transes para o meu amor
Colônias da Terra, colônias do céu
Existe a terra, o fogo, água e o ar
Longe existem transes para o meu amor.
OUÇA!
Stacey Kent com o álbum Breakfast on the morning Tram Disco delicado e delicioso. Ótimo para se ouvir em boa companhia e boa conversa.
Na tentativa de escrever algo novo, me peguei traçando linhas pessimistas e por sua vez, chatas. Não gosto de pessimismos. Não gosto de quem não acredita nisso ou naquilo, de quem não acredita nas possibilidades.
Quero possibilidades. Quero possíveis encontros, simplicidades e taças de vinho ouvindo música tranqüila enquanto falamos de amenidades. Tardes proustianas, mas sem as tendências depressivas e suicidas.
De onde tirei isso? Gostaria que alguém viesse me sacudir de vez em quando. "Deixe de ser imbecil!" "Cresça e seja mais adulto!"
E ser adulto lá tem a ver com pessimismo? Ser adulto é ser amargo? Quero o doce! Quero noites com sol!
Quero prazo de validade infinita, pensamentos deliciosos como manhãs de domingo no campo. Um pouco de amor para amenizar os dias cheios de desabrigos emocionais. Alguém que me amenize.
Sinceramente não sei o que vai ser do mundo com tanta gente pisando em outras, com tanta falta de amor, tanto desgaste, tantos carros buzinando enlouquecidos pelas avenidas.
Então imagino essa avenida cheia de asfalto e concreto sendo transformada com flores espalhadas pelo caminho, árvores e cachorros correndo, carros a 20 por hora...
Hoje vi uma imagem bela. Um taxista passeando tranqüilamente com seu carro pela Vieira Souto e escutando ópera... Isso é viver.
Imagem do dia
Fotografia de John Cohen - capa da revista Vida Simples do mês de Março-2008
Texto do dia:
Receita de Paz - O Poder do Olhar transforma o mundo à nossa volta de Caco de Paula
Conheço alguns seres humanos muito especiais que conseguem manter paz e serenidade em cada um de seus atos. Gente assim, capaz de pacificar o ambiente com sua presença, eleva meus padrões de referência a um ponto em que, na comparação, me vejo às vezes como um pequeno poço de ansiedade. Talvez por isso, ainda que um pouco ansioso, sempre me beneficie do que ouço ou leio a respeito. Sou especialmente grato aos monges Thich Nhat Hanh e Arnold Kotler, fundadores da Parallax Press, editora americana que há quase uma década dedica-se a difundir formas de trazer a espiritualidade para o cotidiano. Num de seus livros, o Engaged Buddhist Reader (sem edição em português), encontrei uma espécie de receita para reduzir o stress no dia de trabalho. É uma série baseada em técnicas de atenção concentrada, descritas por Saki Santorelli, diretor da Clínica de Redução de Stress do Centro Médico da Universidade de Massachusetts. O coração dessa prática é a intenção de permanecer consciente de tudo o que se passa dentro de nós e ao nosso redor. São algumas dicas simples, que me foram muito úteis e que agora divido com você.
Dedique entre cinco e 30 minutos pela manhã para ficar tranqüilo e meditar: sente-se e permaneça com você mesmo. Olhe pela janela, escute os sons da natureza ou dê um passeio lento e tranqüilo. Depois, enquanto aquece seu carro, sossegadamente, preste atenção na respiração durante um minuto. Enquanto dirige, tome consciência da tensão de seu corpo. Perceba as mãos que agarram com força o volante, os ombros levantados, o estômago rígido. Trabalhe para dissolver conscientemente essa tensão. Tenso você dirige melhor? Como seria se estivesse relaxado? Decida-se por não ligar o rádio e ficar com seu próprio som. Quando parar em algum sinal vermelho ou num pedágio, preste atenção em sua respiração e no céu, nas árvores ou na qualidade de sua mente. Enquanto estiver sentado trabalhando, preste atenção nas sensações do seu corpo, tentando relaxar conscientemente e liberar-se do excesso de tensão.
Descanse entre um e três minutos por hora de trabalho. Tome consciência da respiração e das sensações de seu corpo. Permita que sua mente se acostume a ter um tempo para reorganizar-se e recuperar-se. Ao fim de um dia de trabalho, recorde-se das atividades desse dia, agradecendo-se e felicitando-se pelo que realizou, e depois faça uma lista “para amanhã”. Você já fez o suficiente por hoje. Na volta para casa, dedique-se um momento a simplesmente estar. Desfrute desse momento. Observe se está apressado. Quando entrar na rua da sua casa, dedique um minuto a orientar-se para estar com os membros de sua família. Trate de mudar sua roupa de trabalho quando chega em casa. Esse simples ato pode ajudar muito a fazer a transição até seu próximo papel. Cumprimente as pessoas com quem vive. Por um momento, olhe-os nos olhos, por alguns instantes. Se possível, dê-se cinco ou dez minutos para estar tranqüilo e em silêncio. Traga a mente para casa.
Ouvi dizer que são milagre
Noites com sol
Mas hoje eu sei não são miragem
Noites com sol
Posso entender o que diz a rosa
Ao rouxinol
Peço um amor que me conceda
Noites com sol
Onde só tem o breu
Vem me trazer o sol
Vem me trazer amor
Pode abrir a janela
Noites com o sol e neblinas
Deixa rolar nas retinas
Deixa entrar o sol
Livre será se não te prendem
Constelações
Então verás que não se vendem
Ilusões?
Vem que eu estou tão só vamos fazer amor
Vem me trazer o sol
Vem me livrar do abandono
Meu coração não tem dono
Vem me aquecer nesse outono
Deixa o sol entrar
Pode abrir a janela
Noites com sol são mais belas
Certas canções são eternas
Deixa o sol entrar.
Tempos difíceis para os sonhadores. Tempos difíceis para quem não sonha. Tempos difíceis para quem tem medo. Tempos difíceis para quem tem coragem. Tempos difíceis para os que se entregam. Tempos difíceis para os que não. Tempos difíceis para o não. Difíceis também para o sim. Tempos difíceis para quem pensa. Tempos difíceis para quem fala. Tempos difíceis para quem cala e para quem escuta também. E não são hoje somente os tempos difíceis. Difiícil para quem chora. Para quem sorri. Para quem corre. Para quem espera. Para quem se entrega. Para quem se esconde. Para aquilo que se mostra. E para aquilo que nem se percebe. Difícil por difícil, é difícil para qualquer tempo.
E quem sou eu nesse tempo? E o que espero do amor dos sonhos do vento? Quem vai garantir que futuro teremos, que caminhos teremos que desbravar ou já encontraremos desbravados? Quem se entrega é mais esperto, mais covarde ou mais corajoso? Ter medo é ter cuidado? Quem disse? Quem vai garantir que troféus serão entregues aos que sobreviverem? Quem vai morrer primeiro?
Quem pode dizer?
Não. Não quero amor pela metade, Metade de mim já não me pertence e se eu não tiver algo de inteiro que seja meu, então melhor não ter.
Quero rios profundos e caudalosos para me atirar. Nenhum desses que acabam em pedregulhos e se tornam rasos fios a transportar esperas desencantadas.
Quero música! Sinfonias inteiras com brilhantes melodias, óperas grandiosas com gordos e líricos cantores. Bossa-Nova... para as pequenas noites estreladas.
E jardins... Flores de todos os tipos, amores-perfeitos, rosas de todas as cores, jasmins e pequenos colibris.
Quero simplicidade, mas simplicidade inteira. Nada que me dê vontade de voar além do que já quero.
Imagem do dia
The Thinker de Antonio E. L. Costa
Texto do dia:
Pois É
Marcelo Camelo
pois é, não deu
deixa assim, como está, sereno
pois é de deus tudo aquilo que não se pode ver
e ao amanhã a gente não diz
e ao coração que teima em bater
avisa que é de se entregar o viver
avisa que é de se entregar o viver
pois é, até onde o destino não previu
sem mais, atrás vou até onde eu conseguir
deixa o amanhã e a gente sorri
que o coração já quer descansar
clareia a minha vida, amor, no olhar
clareia a minha vida, amor, no olhar.
Não foi possível. Impossível ficar em casa com o coração aos saltos, numa ansiedade de encontro que nunca vai acontecer. E sob olhares assustados, por já ser quase noite, saí para dar um mergulho na praia à noite. É assim mesmo que funciona. Se ali está o mar e aqui estou eu sem razão para permanecer preso às janelas frias e sem a menor sentimentalidade, era no mar que eu deveria estar.
E quando cheguei nem era tão tarde assim, pude ainda sentir a água congelante tocar minhas pernas numa onda mais atrevida que vinha curiosa e esperta verificar se era o pé de um príncipe ou de um plebeu que estava ali. Nem príncipe, nem plebeu... Era somente um cara... Bem, não que já não tenham me chamado de príncipe antes, mas era justamente pra tentar tirar da lembrança tal fato que eu estava ali.
O sol que acabara de se pôr, ainda lançava seus últimos raios que transformavam o céu azul no velho Crepúsculo laranjado e depois violeta que vemos todos os dias de sol.
Caminhei...Corri...Vi casais se beijando, vi amigos conversando, mas o que mais me impressionou foi o barulho que o mar fazia e que ecoava entre meus fios de cabelo. Era um barulho reverberado, diferente...E era bom...Muito bom.
E ali sentado, de frente pro mar e de frente para o céu violeta pude pensar num caso antigo que me aconteceu. Quando ainda era criança, passei um reveillon na Praia do Cajueiro em Natal e perto de onde estávamos havia um farol...Imponente e iluminado. Eu queria chegar perto, queria saber como era, queria ver se algum barco realmente seria protegido pelo farol. É uma das lembranças mais lindas que tenho da minha infância.
E pensando nisso, olhei o mar e procurei entre as montanhas algo que me acalentasse daquela estranha sensação de abandono...E de repente, pude ver maravilhado o brilho do Farol. E então pude me levantar e voltar pra casa... O coração tem caminhos estranhos para chegar à paz.
ASSISTA!
HIROSHIMA, MEU AMOR. Filme de Alain Resnais.
Uma verdadeira obra-prima do cinema francës.
Para assistir ao trecho do filme Hiroshima, Meu Amor pause a música.
Imagem do dia:
e logo chega minha estação predileta do ano.
Foto Cores de Outono - Sem autor. Disponível no site Olhares.
Episódio de hoje:A ESCOLHA DA SOFIA
(Para ler ouvindo Killing Moon cantada por NOUVELLE VAGUE)
Era uma tarde de sábado. Dessas tardes comuns em que não há nem tanto sol e nem tanta nuvem. Um Outono ameno, comum mesmo numa cidade quente como o Rio de Janeiro.
As pessoas caminhando alegremente com seus cães pelas ruas, namorados e amigos que se encontram na rua para rumar em direção à praia. E ali mesmo naquele lugarzinho ameno chamado Leblon a menininha loira saiu de seu apartamento para decidir o que fazer de sua vida que andava tão chatinha ultimamente.
Seus cabelinhos aloirados lisinhos eram levados pelo vento e se não fosse o detalhe de estarem bem pregadinhos à cabecinha esperta da mocinha, voariam pelo bairro como plumas que transformam a manhã de sábado de qualquer um num leve passeio bucólico pelo bairro maravilhoso da cidade maravilhosa.
Ela, que já não agüentava mais a solidão de seu apartamento vazio, quereria encontrar pelo menos um namorado interessante naquela manhã.
Caminhava feito passarinhos que se banham em chafarizes de praças lotadas de criancinhas limpinhas para orgulho de suas mães chatas e desespero de suas babás sofredoras que precisavam vigiar o tempo todo para que a pobre criancinha não se divertisse o quanto queria e assim sujasse aquela bermudinha bege que a mãe comprou por uma fortuna nessas lojinhas simples do Shopping Leblon.
Mas lá foi a mocinha andando pela rua, tentando descobrir o que a faria feliz naquela manhã. Será que um namorado realmente seria a resposta? Ela estava tão bem sem ninguém para lhe torrar a loira paciência. Homens costumam invadir a casa da gente e deixar tênis fedidos de chulé pela sala com meias espalhadas por todos os cantos. Ela não sabia se era realmente isto que queria. Sem falar na angústia que é esperar o homem ligar, mandar notícias, dizer que horas vai chegar, de onde vem, para onde vai...
Foi quando a resposta apareceu numa vitrine. Viu algo se mexendo numa gaiolinha e percebeu que eram cinco lindos gatinhos. Todos branquinhos... Mas um deles lhe chamou a atenção: aquele cor de grafitte!
Decidiu comprar o gato grafitte. Era um gato de raça, reconheceu de cara, tinha um pouco de dinheiro na poupança e acabaria valendo muito mais a pena do que o stress de um namorado jogador de meias pela sala.
Foi então que entrou na tal lojinha de animais.
Ninguém no balcão...
"Alô..." "Alguém aí?" Ninguém ouviu. Olhou de novo para o gatinho grafitte e pensou que azar seria se não tivesse ninguém para lhe vender o gato. Foi quando viu uma escadinha no fundo da loja. Talvez ali estivesse o seu salvador, aquele que lhe venderia o tal gato.
"E se lá em cima eu encontrar um homem lindo, pronto para me dar todo amor que eu preciso e ainda levo o gato como bônus?"
Subiu as escadas...
"Tem alguém aí?"
Subiu mais alguns degraus até chegar numa salinha superior, local onde os funcionários davam banhos nos animais, tosavam e faziam outros serviços comuns dessas lojas.
Viu um homem, mas viu também uma mulher... E viu os dois juntos...E na verdade...
Bem...
Eles estavam bem entretidos para ouvi-la..Bem entretidos...
Eu quis dizer...
Entretidos mesmo... Ela percebeu esta realidade ao notar que ele estava bem entretido fazendo seus movimentos de in-out in-out in-out.
Por uns dois segundos ficou assustada com a situação. Mas os dois segundos seguintes foram de reflexão. E os próximos segundos foram de uma tranqüila decisão.
Abriu calmamente a gaiolinha, pegou o gato grafitte e notou que era, na verdade, uma gata grafitte.
Saiu da loja com sua gatinha, andando pelas ruas do Leblon alegremente... Ela, com seus cabelinhos loiros que pareciam plumas ao vento, e a gata, com seus pêlinhos cor de grafitte.
E por achar sua atitude muito sábia na lojinha de animais onde os vendedores estavam bem entretidos, chamou a gata de Sofia. E assim viveram felizes para sempre. Ela, sem o namorado atirador de meias pela sala e Sofia, a gatinha cor de grafitte.
Imagem do dia:
Momenti di Felicità de Rosina Wachtmeister
OUÇA!
Lançado no ano passado, o álbum da cantora indie, pop e talvez meio rock também, Leslie Feist é um verdadeiro deleite para ouvidos sensíveis.
Vale a pena. Principalmente por canções como Sorry e 1234.
Não se pode negar que saudades são como velas de aniversário. Apagam-se e voltam a se acender até que novamente são apagadas e novamente são acesas. E as brincadeiras dizem que quanto mais as velinhas se acenderem, mais anos de vida há pela frente para o aniversariante. Acho que a saudade é um pouco assim também.
Uma música faz lembrar de tardes inteiras assistindo a espera presença na janela para um aceno qualquer. Ainda estão na minha lembrança ruas estreitas e ladeiras com suas velhas igrejas e os olhos verdes brilhantes. O encontro fortuito em frente a determinado cinema, o Gelatto numa fábrica de chocolates... Quero ser John Malkovich...Ou simplesmente quero ser amado...
Por que ficamos tão presos ao que está no passado? Por que simplesmente não deixamos que a vida deixe pra trás o que precisa ser deixado e seguimos em frente? Em que beco escuro se esconde nossa capacidade de esquecer?
E os dias vão passando assim...Sem muito brilho no coração, mas com um brilho eterno de uma mente com muitas lembranças.
Sim...Sinto saudades e não consigo deixá-las pra trás.
Imagem do dia
Estação de Portugal Imagem disponivel no site Olhares.
Foi um dia intenso aquele. Sem raio de sol pra aquecer, mas com um frio de congelar ossos malacostumados.
Na tentativa de esquecer foi caminhando pela rua com a sensação de derrota, sensação que já havia experimentado diversas outras vezes pela vida. Talvez porque se sentia menos do que realmente era. Talvez porque sua vida fora realmente difícil e não via outra possibilidade que não fosse a de sofrer.
Na pergunta crucial que fiz estava toda a sorte de significados que procurei empreender de forma delicada: "Será que você não percebe? Será que não vê que sua solidão foi cavada por você mesmo? Não percebe que a tristeza, a doença, o desespero foram criados por você?". Porque todo mundo morre, todo mundo vai embora um dia, todo amor termina, o dia nasce todo dia, mas resta uma dúvida, o sol só vem de vez em quando.
Quando o mar atinge as areias, seu som para uns é tranquilidade, para outros desespero. É uma questão de escolha.
Comecei a imaginar se não estava sendo pragmático demais. Se não era egoísmo demais. Se eu poderia dizer diferente, que é tudo no fim vai dar certo. Será que é só isso que queremos escutar? Afinal, o que esperamos ouvir quando nos debruçamos em lamúrias? Por que algumas pessoas lamentam mais do que outras? Isso não cansa? Aí lembro das velhas aulas de psicanálise: o gozo pela dor.
Não sei, não sei se quero saber, mas não tenho raiva de quem sabe... Tenho curiosidade.
Imagem do dia
Junto a ti de K&P
LEIA!!!!
De Repente, nas Profundezas do Bosque de Amos Oz.
Uma delicada fábula que trata da intolerância à diferença, ao preconceito. Lindíssimo texto do escritor.
E sem saber muito bem onde enfiar as mãos ou os pés e com medo de meter uns pelos outros, fui em frente. Ainda titubeando feito criança que não sabe andar bem, que tem medo de cair, que acha o mundo grande demais e que preferiria estar ainda engatinhando porque o chão, sem aquela altura pouco segura de queda, é muito mais gostoso.
Ou mesmo preferiria estar deitado no colo da minha mãe. Porque é difícil ser homem. É difícil passar por aquele intransigente porta que separa a ilusão da realidade. É difícil superar a encruzilhada que este tornar-se homem empreende frente aos sonhos de criança de um dia ser forte, feliz e ter ao seu lado um grande amor porque foi isso que me ensinaram na TV e no cinema.
E olho pra trás e vejo meu pai rindo pra mim ou de mim e sinto que se eu não correr vou ficar atrás e ficando atrás não há amor, não há vitória, não há beijo no pódium de chegada. E imerso em meus pensamentos eu vou me lembrando da casa de meus avós. Sempre cheia... Sempre repleta de risos e palavras e berros e música. E recordo que eu olhava aquilo tudo com olhos mais medrosos do que curiosos porque não era meu mundo. Meu mundo era aquele em que eu vivia calado mesmo falante. Era nesse mundo recolhido e quieto que eu podia chorar sem vergonha e rir alto sem medo e amar quem eu quisesse. E sequer pensar que minhas chances seriam mínimas...
Naquele tempo eu acreditava que ia ser tudo o que quisesse e me esqueci de verificar se teria de abrir mão de alguma coisa. Não...Eu não quero abrir mão. Mas o tempo foi transtornando minha paz e me descobri sozinho.
E no meu mundo ideal eu chego do meu trabalho e recebo como recompensa um beijo de boa noite e um abraço apertado por estar de volta. Quem pode me culpar disso?
ASSISTA!
Lavoura Arcaica - filme de Luiz Fernando Carvalho da obra de Raduan Nassar
Filme imperdível, intenso...uma verdadeira obra-prima do cinema nacional.
E vamos começando mais um ano... E chegando ao final de um primeiro mês.
Tenho sempre a impressão de que todas as coisas mais bonitas podem estar passando por nossos olhos sem que nos demos conta.
E por isso estou atento. E por isso quero estar livre das amarras que me impus.
Quero viver... E viver é emocionar-se...